Elvis 1956


terça-feira, 16 de maio de 2017

LIVRO ELVIS E EU CAPITULO 36

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Continuação do livro Elvis e EU  Elvis And Me CAPITULO 36


Nosso casamento era agora apenas de tempo parcial. Elvis queria liberdade para ir e vir conforme lhe aprouvesse — e era o que fazia. Quando estava em casa, ele se mostrava atencioso e amoroso, como pai e marido. Mas estava bem claro que eu era a principal responsável pela criação de Lisa.

Ocorreu um incidente que me levou a compreender que precisava passar mais tempo com Lisa. Ela, Elvis e eu estávamos prestes a posar para uma fotografia de família. Eu a vestia, enquanto a babá escovava seus cabelos. Depois, quando comecei a me encaminhar para o local em que a foto seria batida, ela se recusou a me acompanhar.

— Qual é o problema? — indaguei. — Vamos logo, meu bem.

— Não! Não! — protestou Lisa, agarrando-se à babá.

Quando ela começava a chorar, eu ficava nervosa e irritada. Peguei-a pela mão e exortei-a, como se uma criança pudesse entender minha lógica:

— Mas você tem de ser feliz! Vai tirar fotografias com mamãe e papai! Cada foto foi um tremendo esforço, enquanto tentávamos persuadi-la a rir. Por um momento conseguíamos, mas no instante seguinte as lágrimas tornavam a aflorar. Ela chorou até mesmo no colo do pai, enquanto eu tentava suborná-la com brinquedos para obter um sorriso.

Foi nesse instante que percebi a situação. Santo Deus, ela está tão afeiçoada à babá que não quer deixá-la! Eu sabia agora que tinha de arrumar mais tempo para passar com Lisa. Ela fora afetada por meus problemas. Empenhada em concentrar minha vida em torno de Elvis, mesmo durante suas ausências, eu negligenciara não apenas as minhas próprias necessidades, mas também as de minha filha.

Estava dividida entre os dois. Quando Elvis se encontrava em casa, eu queria ficar ao seu lado, sem outras responsabilidades; mas também queria fazer companhia a Lisa, sabendo o quanto ela precisava de mim. Comecei a


levar Lisa aos parques, festas vespertinas e a aulas diárias de natação. Convenci-me de que em breve não precisaria mais recorrer a brinquedos, pirulitos e sorvetes para lhe arrancar um sorriso.

Ela sentava entre Elvis e mim à mesa de jantar, espremendo espinafre entre as mãos e sujando o rosto. Elvis tentou convencer a si mesmo de que achava aquilo maravilhoso, mas o fato é que ele se retirava, dizendo à empregada:

— Vamos comer no estúdio. Lisa irá se encontrar conosco lá depois que terminar de brincar com sua refeição.

Quando Elvis estava ausente, o que infelizmente acontecia durante a maior parte do tempo agora, eu continuava a enviar as remessas regulares de fotos e filmes, documentando cada momento do crescimento de Lisa. Quando ele estava conosco, eu o estimulava a participar das caçadas a ovos de Páscoa e outras diversões, convidando Joe, Joanie e seus filhos, assim como outras famílias amigas.

Lisa e eu o visitávamos em Las Vegas nos aniversários dela, com festas enormes na suíte. Lisa ganhava todos os presentes inimagináveis, de máquinas caça-níqueis a dois filhotes de são-bernardo (um presente do Coronel Parker) e uma sala inteira cheia de balões — tudo, em suma, que uma garota de dois ou três anos não devia ter e não podia apreciar. Era importante para mim que Elvis estivesse em casa no Dia dos Pais e no dia das Mães, mas invariavelmente ele telefonava para avisar que não poderia comparecer. Depois, tentava compensar, levando para casa presentes como uma caixa de jóias de mármore cheia de anéis, colares e brincos de diamantes, ou um guarda-roupa feito por um modista exclusivo, comprado numa butique de Las Vegas. Mas não adiantava. Eu não queria as peles e jóias — tinha todas que poderia usar — queria apenas que Elvis ficasse em casa. Era um esforço constante, tentando sozinha manter as tradições familiares.

Embora preferisse mimar Lisa, Elvis a disciplinava de vez em quando. Houve uma ocasião em que lhe deu uma surra por escrever com creiom num lindo sofá de veludo Entrou em pânico no instante seguinte, querendo que eu lhe assegurasse que fizera o que era certo e que Lisa não guardaria ressentimento. Só sentiu-se melhor quando eu declarei:



ELVIS E EU

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— Se você não tivesse batido nela, eu o teria feito.

A única outra ocasião em que Elvis tocou nela com raiva foi depois de adverti-la repetidamente que não se aproximasse da piscina e Lisa desobedeceu. (Ela se lembra nitidamente e sente-se orgulhosamente satisfeita pelas duas surras.)

Quando tinha quatro anos, Lisa compreendeu que podia manipular os empregados. Sempre que alguém se recusava a fazer alguma coisa para ela, Lisa declarava:

— Vou falar com papai e você vai ser despedido.

Como ninguém queria que ela falasse com Elvis, todos lhe permitiam fazer o que bem desejasse, de ficar acordada até tarde a evitar os banhos noturnos e não ir à escola. O resultado era que Lisa tinha dificuldade para aprender o que era certo e errado, o que podia e o que não podia fazer.

— Não pode tratar as pessoas assim — eu disse a ela. — É ofensivo. Trabalham para seus pais, é verdade, mas não pode ameaçá-las a todo instante.

Acostumada a ver as pessoas tremerem diante de seu pai, Lisa levou anos para superar esse hábito. Em reuniões de família hoje, com Jerry Schilling, Joe Esposito e os filhos de Dee Presley, Ricky e David, ainda rimos do passado ditatorial de Lisa.

Desde que Elvis voltara a se apresentar ao vivo, nossa casa em Hillcrest se tornara tão pública que mal conseguíamos entrar e sair. Fotógrafos escondiam-se no jardim dos fundos, revelando sua presença nos momentos mais inoportunos. Uma ocasião, quando estávamos relaxando à beira da piscina, tomando banho de sol, inclinei-me para dar um beijo prolongado em Elvis. Ele murmurou:

— Que barulho é esse? Psiu! Fique quieta! Sonny! Jerry! É o estalido de uma câmara!

Elvis levantou-se de um pulo e todos correram atrás do pobre coitado. Na frente seguia Elvis, gritando palavrões e ameaças. Tenho certeza que aquele fotógrafo nunca mais voltou.

Em três anos de Hillcrest a casa tornou-se pequena. Lisa e a babá partilhavam um quarto, Charly tinha outro, Patsy, Gee e o novo bebê ocupavam o chalé nos fundos. Elvis chegou à conclusão de que


precisávamos de mais espaço, inclusive porque queria Sonny sempre por perto, à sua disposição. As conversas sobre uma casa nova adquiriram uma súbita urgência.

Quando um par de antigos regulares bateram em nossa porta, sem dinheiro e desempregados, Elvis se compadeceu e instalo-os na sala de estar. Acordei de madrugada ao som de música estrondosa e descobri que os dois haviam apagado de tanto beber Jack Daniel's e Coca. Copos estavam espalhados por toda a sala, cinzas cobriam o tapete. Achei que minha casa estava sendo convertida numa pensão.

— Eles não têm respeito por coisa alguma — queixei-me a Elvis, naquele mesmo dia. — O que vai acontecer se pegarem no sono com cigarros acesos na mão? Todos vamos morrer queimados. Por quanto tempo tenciona permitir que eles fiquem aqui? — Eu não escondia minha desaprovação. — Não quero que Lisa viva num ambiente assim.

— Tem toda razão, Honey. Talvez eu vá para Palm Springs esta noite. A busca por uma nova casa levou-nos a Holmby Hills, uma área exclusiva de amplas propriedades, entre Bel Air e Beverly Hills. Encontramos uma casa tradicional de dois andares, bem situada numa colina, cercada por dois acres de gramados bem cuidados e laranjais. Era mais do que nossas outras casas de Los Angeles, com uma cerca alta e portões intimidativos, a fim de garantir nossa privacidade.

Eu esperava que aquela casa devolvesse a atenção de Elvis à família e que ele passaria agora os fins de semana com a gente, em vez de ir para Palm Springs. Elvis dispunha de um escritório, um estúdio, uma sala de jogos, um cinema, uma saleta para refeições particulares e uma sala de jantar grande para receber os amigos e parentes. Minha intenção era decorar a casa exclusivamente a seu gosto, com idéias da casa de Hillcrest, que fora a sua predileta.

A casa custou em torno de 335 mil dólares, pouco mais do que o orçamento que tínhamos em mente. Com alguma persistência de nossa parte. Vernon acabou permitindo, embora cauteloso, que eu contratasse um profissional para ajudar a decorá-la. Seria a primeira casa que eu decoraria a partir do nada e achei muito emocionante — elaborar os projetos, escolher as cores, os tecidos, o papel de parede, os móveis antigos. Adorei procurar


por peças especiais: uma cristaleira que escondia um aparelho de televisão, arcas antigas usadas como mesinhas, vasos antigos que eram convertidos em abajures. Sentia-me tão excitada com o projeto que persuadi Elvis a não olhar os estágios preliminares, esperando até que tudo estivesse pronto. A decoração tornou-se minha paixão. O desafio era tão absorvente que pude esquecer todas as minhas preocupações pelo nosso relacionamento. Em vez de remoer minha solidão, eu estava empenhada num trabalho construtivo, que exigia todo o talento, imaginação e capacidade de organização de que eu era capaz.

Foi nessa ocasião que outra força gratificante e libertadora entrou em minha vida — o caratê. Era o amor e hobby de Elvis há anos; quando comecei a praticá-lo, era apenas mais um dos meus esforços para atrair sua atenção e aprovação, como já acontecera no passado, quando tomara aulas de francês porque ele gostava da língua aulas de flamenco porque ele era apaixonado e de balé porque ele adorava os corpos de bailarinas. Há muito que Elvis admirava o mestre do Kung-fu Ed Parker, a quem conhecera anos antes. Comecei a tomar aulas particulares, sob orientação de Ed, três vezes por semana. Logo percebi que havia muito mais naquela arte do que apenas violência. Era uma filosofia. E me tornei ainda mais envolvida quando Elvis aplaudiu o meu progresso.

Quando voltamos a Memphis, Elvis dormia durante o dia e aproveitei para me matricular num curso de outra arte marcial oriental, o Tae Kwan Do coreano. Tornei-me tão obsessiva quanto Elvis na dedicação a essa arte. Uma exigência compulsória era memorizar as formas, Katas e posturas na língua coreana, assim como aprender a história do Tae Kwan Do. O treinamento era excepcionalmente rigoroso. Executávamos o mesmo movimento por vezes incontáveis, até que se tornasse perfeito. O suor caía em meus olhos, mas se eu limpasse teria de pagar com cem flexões, sob os olhares vigilantes de toda turma, uma humilhação que eu não desejava e conseguia evitar.

Podia agora compreender o fascínio de Elvis pelo caratê. Era uma grande realização, uma conquista da confiança e do controle físico da própria pessoa. Em 1972, enquanto Elvis se apresentava em Las Vegas, conheci um dos maiores mestres do caratê dos Estados Unidos na ocasião,


Mike Stone. Naquela noite em particular ele estava servindo como segurança de um proeminente produtor de discos. Depois do espetáculo, eles foram visitar Elvis nos bastidores. Todos ficaram mais impressionados com Stone do que com o impetuoso magnata que ele estava protegendo. Elvis fez-lhe os maiores elogios e uma porção de perguntas, assim como Sonny e Red. Vários anos antes assistíramos Stone se apresentando num torneio no Havaí admiráramos sua técnica excepcional. Mais tarde, naquela mesma noite, na Suíte Imperial, Elvis encorajou-me a treinar com Mike.

— Ele possui a qualidade de matador. Não há nada de duas pernas que possa derrotá-lo.

Estou impressionado pela primeira vez desde que o vi lutar. Gosto do seu estilo. De volta a Los Angeles, acertei com Mike que iria à sua academia no final da semana e assistiria a uma de suas aulas. Era uma viagem de carro de 45 minutos. Elvis tinha razão. Mike irradiava confiança e classe, assim como muito charme pessoal e espírito. Uma amizade profunda se desenvolveria entre nós. Por causa da distância, resolvi continuar o treinamento com um amigo de Mike, Chuck Norris, que tinha uma academia mais perto de minha casa. Mike aparecia por lá de vez em quando, como instrutor convidado. Eu estava saindo do mundo fechado de Elvis, compreendendo como minha existência fora resguardada até então. Mike e Chuck introduziram-me aos filmes populares de artes marciais japonesas, como a série do Espadista Cego. Em companhia de Mike, compareci a torneios de karatê locais e nos condados vizinhos, levando para casa fotos e filmes dos maiores lutadores de caratê. Queria absorver seus estilos individuais, a fim de poder partilhá-los com Elvis, na esperança de que fosse uma coisa que pudéssemos desfrutar em comum. Ao final, porém, criei um novo círculo de amigos, que me aceitava por mim mesma. As artes marciais me proporcionaram tanta confiança que comecei a experimentar meus sentimentos e expressar minhas emoções como jamais acontecera antes. Acostumada a reprimir minha raiva, eu podia agora descarregá-la honestamente, sem o medo de acusações ou explosões. Parei de pedir desculpas por minhas opiniões e de rir de piadas que não achava engraçadas. Iniciara-se uma transformação, em que o medo e a indiferença


ELVIS E EU
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não tinham lugar. Juntamente com essa nova confiança, despojei-me dos cílios postiços, maquilagem intensa, jóias e roupas vistosas.

Livrei-me agora de todos os artifícios a que recorrera em busca de segurança. Estava vendo a mim mesma pela primeira vez e levaria algum tempo para que me acostumasse à imagem. Tinha a oportunidade de observar casamentos fora do nosso círculo íntimo, em que a mulher podia se manifestar tanto quanto o homem nas decisões cotidianas e nos objetivos a longo prazo. Fui confrontada com a descoberta dura de que viver como eu vinha fazendo há tanto tempo era bastante anormal e prejudicial ao meu bem-estar. Meu relacionamento com Mike se desenvolvera agora para uma ligação amorosa.

Eu ainda amava Elvis profundamente, mas durante os meses seguintes compreendi que teria de tomar uma decisão crucial sobre o meu destino. Sabia que devia assumir o controle de minha vida. Não podia renunciar a minhas novas percepções. Havia um mundo enorme lá fora e eu tinha de encontrar meu lugar nele.

Gostaria que houvesse algum meio de partilhar com Elvis minha experiência e crescimento. Desde a adolescência que ele me moldara num instrumento de sua vontade. Com extremo amor, eu cedera à sua influência, tentando satisfazer cada desejo seu. E agora ele não estava ao meu lado.

Acostumada a viver em cômodos escuros, mal vendo o sol, dependendo de acessórios químicos para adormecer e acordar, sob o cerco de guarda-costas que nos distanciavam da realidade, eu ansiava pelos prazeres mais normais. Comecei a apreciar as coisas simples que gostaria de partilhar com Elvis e não podia: passeios pelo parque, um jantar à luz de velas para dois, risos.

Elvis deve ter percebido minha inquietação. Cerca de dois meses depois, em Las Vegas, Joanie, Nora, Foke, Pat (mulher de Red) e eu estávamos jantando no restaurante italiano do Hilton, entre os shows de Elvis. O maître aproximou-se com o recado de que Elvis queria falar comigo lá em cima, na suíte. Lembro de ter pensado que isso era estranho. Elvis raramente ia à suíte entre os shows. Subi cheia de curiosidade. Chegando à suíte, encontrei Elvis deitado na cama, obviamente à minha


espera. Ele me agarrou e fez amor com o maior vigor. Foi desagradável e diferente de todas as outras vezes. Elvis explicou:

— É assim que um homem de verdade faz amor com sua mulher.

Aquele não era o homem gentil e compressivo que eu aprendera a amar. Com meu crescimento pessoal e as novas realidades que descobrira, Elvis se tornara um estranho para mim. Chorei em silêncio, enquanto Elvis se levantava e se vestia para o espetáculo. A fim de que o casamento sobrevivesse, Elvis teria de remover todas as barreiras artificiais que restringiam a nossa vida conjugal. Havia muito espaço para dúvida, muitas perguntas sem respostas. Era difícil para Elvis assumir o seu papel de pai e marido. E como nenhum de nós dois tinha a capacidade de sentar e enfrentar os problemas que punham em risco a família, parecia não haver qualquer esperança.

O que realmente doía era o fato de Elvis não ser sensível a mim como mulher e sua tentativa de reconciliação ter ocorrido tarde demais; eu me apossara de minha própria vida. Não fechei os olhos naquela noite, remoendo o que teria de dizer a Elvis. Ele era o meu grande amor. Contemplando-o, pensei em todas as vezes em que passara os dedos por seus lábios, nariz, cabelos, sempre enquanto ele dormia. E, agora, esperava que ele acordasse, esperava pelo momento certo, se é que algum poderia ser certo. Àquela altura de nosso casamento, estávamos tão raramente juntos que era difícil imaginar sua reação às minhas palavras; parecera muito mais fácil projetar toda a cena em minha imaginação.

Passava um pouco de duas horas da tarde. Eu já me levantara e começara a arrumar minhas coisas quando Elvis despertou, alerta no mesmo instante, indagando:

— Para onde você vai?

— Tenho de voltar.

— Tão cedo? Geralmente você não volta tão cedo.

— Tem razão, mas preciso voltar agora. Tenho muitas coisas para fazer. — Hesitei por um instante. — Antes, porém, preciso lhe dizer uma coisa.

Parei de arrumar as coisas e fitei-o.



— Provavelmente é a coisa mais difícil que já tive de dizer em toda a minha vida. — Fiz uma pausa longa e mal consegui acrescentar: — Vou deixar você.

Elvis sentou na cama.

— Como assim?

Nunca, em todo o nosso casamento, eu sugerira que poderia abandoná-lo.

— Vou me separar de você.

— Perdeu o juízo? Tem tudo que qualquer mulher pode querer. Não pode estar falando sério, Sattnin. — Sua voz estava cheia de angústia. — Não posso acreditar no que estou ouvindo. Está querendo dizer que tenho sido tão cego que não percebi o que estava acontecendo? Andei tão distraído que não percebi o que poderia vir!

— Estamos levando vidas separadas.

Elvis finalmente perguntou:

— Perdi você para outro homem?

— Não é que você tenha me perdido para outro homem... apenas me perdeu para minha própria vida. Estou descobrindo a mim mesma, pela primeira vez.

Elvis fitou-me em silêncio, enquanto eu terminava de arrumar tudo e fechava a mala. Tentei me encaminhar para a porta, mas não pude mais me conter e voltei correndo para os seus braços. As lágrimas escorriam por nossas faces.

— Tenho de ir — balbuciei. — Se eu ficar agora, nunca mais irei embora.

Desvencilhei-me, peguei a mala e segui para a porta.

— Cilla! — gritou Elvis, fazendo-me parar. — Talvez em outra ocasião, em outro lugar.

— Talvez — respondi, olhando para trás. — Apenas este não é o momento.

E saí.


Minha viagem a Memphis foi inesperada e breve, só tinha um propósito — buscar minhas coisas. Queria passar o mínimo de tempo possível ali. Graceland fora o meu lar e era difícil despedir-me de todos. Os empregados, a maioria contratada por mim, pareciam saber sem que fossem informados que eu estava partindo para sempre. Ninguém disse nada, mas seus abraços chorosos falavam tudo. Encontrei Dodger em seu quarto — agora no andar térreo — e sentei a seus pés, enquanto ela balançava na cadeira de balanço.

— Não fale isso, meu bem — disse ela. — Não pode estar falando sério.

Depois, compreendendo que eu falava mesmo sério, ela se apressou em acrescentar:

— Vai me procurar, não é mesmo... vai manter em contato?

— Claro, Dodger. Sempre ficarei em contato com você. Pobres crianças. Tenho pena pelos dois.

Vovó chorou ao tentar compreender por que duas pessoas que se amavam tinham de se separar.

— Bem que tentei dizer a ele que devia passar mais tempo com você... e com a menina.

— Não é culpa de ninguém, Vovó. É apenas a vida. Ainda nos amamos. E sempre vamos nos amar.

— Acho que vocês voltarão a viver juntos, meu bem. — Ela estava retorcendo as mãos. — Deus sabe como vocês dois se amam muito.

Havia uma vista dos pastos verdes além da janela de Vovó— Sun, o velho estábulo, todas as recordações que marcavam o período mais feliz de nossas vidas. Graças a Deus que era um lindo dia; sempre detestei os dias de chuva em Graceland, pois me faziam lembrar os invernos solitários em que Elvis estava longe.

No calor e sol lá fora, vagueei pela propriedade, contemplando pela última vez a varanda da frente, em cujos degraus Elvis e eu sentáramos, sonhando com uma viajem à Europa em que voltaríamos à casa na Goethestrasse onde nos conhecêramos. Olhando pelos gramados e o longo caminho circular, descendo até os Portões Musicais, onde as fãs sempre esperavam, especulei se algum dia voltaria ali. Atravessei as pequenas



ELVIS E EU
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crateras abertas pelas guerras de fogos de artifício. Na garagem, passei a mão por um dos carrinhos. Não podia acreditar que estava tudo acabado.



ELVIS E EU



CONTINUA,,,,,,,
 
 
 
 
 

 

 

LIVRO ELVIS E EU CAPITULO 35

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Continuação do livro Elvis e EU  Elvis And Me CAPITULO 35


Entrei na sala e encontrei Elvis e Vernon discutindo sobre o Coronel Parker.

— Ligue para ele e diga que está acabado, papai. Vamos cancelar os contratos e eu pagarei qualquer porcentagem que estivermos lhe devendo.

— Tem certeza de que é isso o que quer, filho?

— Claro que tenho. Detesto o que estou fazendo e não agüento mais. Elvis saiu furioso pela porta da frente, não voltou naquela noite nem nos dias subseqüentes. Todos ficamos aturdidos. Era a primeira vez que ele viajava sozinho — sem levar sequer um guarda-costas. Elvis nem mesmo sabia o seu próprio telefone, não andava com dinheiro. Como poderia se arrumar? Tudo sempre fora providenciado para ele.

Segundo Jerry Schilling, Elvis embarcou num vôo comercial para Washington, D.C., com a intenção de se encontrar com o Presidente Nixon. Ao chegar, teve uma súbita reação à penicilina que tomara para uma gripe e resolvera voltar a Los Angeles. Telefonou durante uma escala em Dallas, pedindo a Jerry que fosse encontrá-lo no aeroporto de Los Angeles com um médico. Queria um tratamento para a reação. Ele descansou dois dias em Los Angeles e depois voltou a Washington, em companhia de Jerry. Levavam quinhentos dólares, de um cheque que Jerry conseguira descontar.

Durante o vôo, Elvis puxou conversa com um jovem soldado, que acabara de voltar do Vietnam. O soldado devia ter contado a história de sua vida. Antes do avião pousar, Elvis pediu os quinhentos dólares a Jerry e entregou ao jovem, desejando-lhe boa sorte. Jerry protestou:

— Isso é tudo o que temos, Elvis.

Ao que Elvis respondeu:

— mas ele precisa mais do que eu, Schilling.



Depois, ainda durante o vôo, ele pediu à aeromoça papel e caneta. Elvis nunca foi muito de escrever cartas, mas agora escreveu uma ao Presidente Nixon, explicando como poderia ajudar a juventude a se livrar das drogas. Era uma súplica fervorosa, os erros apressadamente riscados e corrigidos, enquanto ele passava seus pensamentos para o papel.

Jerry providenciou para que uma limusine fosse buscá-los no aeroporto e os levasse à Casa Branca. Eram seis e meia da manhã e Elvis estava vestido de preto, óculos escuros, o cinto largo de ouro do International e uma bengala. Aproximou-se do portão, nas palavras de Jerry, parecendo Drácula. O rosto estava um pouco inchado e Jerry temia que sua aparência pudesse despertar suspeitas.

Assim que Elvis explicou quem era e que tinha uma mensagem para o Presidente, foi-lhe prometido que a carta seria entregue a Nixon por volta das nove horas da manhã. Elvis determinou então que Jerry providenciasse um encontro seu com John Finlator, Vice-Diretor de Narcóticos, em washington. Elvis queria realmente ajudar os garotos a se livrarem das drogas. Outro propósito de sua viagem era obter para si mesmo um emblema de agente da Divisão Federal de Narcóticos.

Elvis era um grande colecionador de emblemas. Tinha emblemas de detetive, guarda e xerife de todas as partes da nação; o emblema de agente de narcóticos representava para ele um espécie de poder supremo. Em sua imaginação, esse emblema lhe proporcionaria o direito de carregar qualquer droga. Também daria a ele e sua Máfia de Menphis o direito de portar armas. Com o emblema de agente federal de narcóticos, poderia entrar legalmente em qualquer país, portando armas e carregando todas as drogas que desejasse.

Sua obsessão em obter esse emblema fora causada por um detetive particular chamado Jonh O'Grady, a quem Elvis contratara para trabalhar num processo de paternidade. O'Grady informara que John Fillator era o homem que deveria procurar. Elvis determinou que Jerry ficasse esperando no hotel, para o caso do Presidente Nixon telefonar enquanto ele ia falar com Finlator. Uma hora depois Jerry recebeu um telefonema de Elvis, dizendo que Finlator negara seu pedido. Jerry ficou surpreso pelo
estado emocional de Elvis. Ele parecia à beira das lágrimas quando disse:


ELVIS E EU



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— Ele não quer me dar o emblema!

Jerry conseguiu animá-lo um pouco com a informação de que acabara de receber um telefonema da Casa Branca.

— O Presidente leu sua carta e vai recebê-lo dentro de vinte minutos. Entrar na Casa Branca não era fácil, nem mesmo para Elvis Presley. Os guardas se mostraram cordiais, mas cautelosos, revistando-o meticulosamente. Jerry também foi revistado antes de terem acesso ao Gabinete Oval, assim como Sonny West, a quem Jerry chamara e tornou-se atordoado quando compreendeu que ia se encontrar pessoalmente com o Presidente dos Estados Unidos.

Elvis foi conduzido sozinho ao Gabinete Oval. Jerry e Sonny foram informados de que deveriam esperar do lado de fora, mas que havia alguma possibilidade de serem apresentados ao Presidente depois. Segundo Jerry, eles foram introduzidos no Gabinete Oval menos de um minuto depois. Jerry sabia que se houvesse algum meio de introduzi-los, Elvis daria um jeito. Nem mesmo o Presidente era imune a seu charme. Ao entrarem, Jerry e Sonny constataram no mesmo instante que Elvis estava inteiramente à vontade. Apresentou a todos e exortou o Presidente a dar a Jerry e Sonny abotoaduras de presente, até mesmo pediu por lembranças para levarem para as esposas. Quando ele deixou o Gabinete Oval, acrescentara à sua coleção o emblema que considerava mais importante. Saiu sorrindo, um Elvis diferente do que poucas horas antes estava tão transtornado emocionalmente. Nixon revogara a decisão de Finlator e determinara que um emblema fosse levado ao Gabinete Oval, a fim de presenteá-lo a Elvis.

A discussão sobre o Coronel que desencadeara aquela aventura nunca mais foi mencionada.



ELVIS E EU


CONTINUA,,,,,,